|Tuesday, October 17, 2017
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Porque o cessar-fogo falhou na Síria? 

Síria

O público ocidental entusiasmou-se com o cessar-fogo russo-americano na Síria e acreditou que ele podia trazer a paz. Ora, isto é não ter nenhuma memória do início da guerra e nada compreender sobre as motivações que ela visa. Explicações…

cessar-fogo na Síria só durou a semana do Aïd. Foi a enésima vez desde a assinatura da paz entre os Estados Unidos e a Rússia. Este não durou mais que a tal paz, e que os precedentes.

Recordemos os factos: a 12 de Dezembro de 2003, o Presidente George W. Bush assinava uma declaração de guerra à Síria, o Syrian Accountability Act. Após uma série de tentativas para iniciar as hostilidades (cimeira da Liga Árabe de 2004, assassinato de Rafic Hariri em 2005, guerra contra o Líbano em 2006, criação da Frente de Salvação em 2007, etc.), as Forças Especiais do EU passaram à ofensiva, no início de 2011, dedicando-se a montar uma encenação visando fazer crer numa «revolução» interior. Após dois vetos no Conselho de Segurança pela Rússia e pela China, os Estados Unidos aceitavam uma negociação de paz em Genebra, que assinaram na ausência das partes sírias, a 30 de Junho de 2012.

Primeira nota : 
Aqueles que pretendem que o actual conflito não é o resultado de uma agressão externa, mas antes uma «guerra civil», não conseguem explicar as consequências da declaração de guerra à Síria pelo Presidente Bush em 2003, nem porque a paz de 2012 foi assinada pelas grandes potências sem a presença de qualquer Sírio.

Desde a assinatura da paz, há quatro anos, a guerra recomeçou, apesar das múltiplas tentativas de pacificação negociadas, cara a cara, pelo Secretário de Estado John Kerry e pelo seu homólogo russo, Sergey Lavrov.

Ao longo destes quatro anos, eu detalhei, passo a passo, os conflitos no seio do aparelho de Estado dos E.U. (as maquinações de Jeffrey Feltman e dos generais David Petraeus e John Allen contra o Presidente Obama, bem como os problemas dentro do CentCom). Hoje em dia, segundo a imprensa norte-americana, os homens da CIA e os do Pentágono travam uma batalha feroz na Síria; enquanto o Secretário da Defesa, Ashton Carter, afirmou publicamente que não acreditava que os seus homens aplicariam o acordo assinado pelo seu colega John Kerry; o qual se afirmou céptico sobre a sua própria capacidade quanto a fazer a sua assinatura, em nome do seu país.

Segunda nota : 
Não apenas o Presidente Barack Obama não está à altura de impôr a sua vontade aos diferentes ramos da sua administração, como nem sequer consegue arbitrar mais entre elas. Cada sector prossegue a sua própria política, ao mesmo tempo contra os outros sectores e contra os inimigos externos

Os Estados Unidos mudaram várias vezes de objectivo de guerra, o que torna a sua política pouco perceptível.
- Em 2001, Washington procurava controlar todos os recursos petrolíferos e de gás disponíveis no mundo, persuadido como estava que nos dirigíamos para um período de penúria. Foi sobre esta base que reuniu aliados contra a Síria. No entanto, no fim dos anos 2010, abandonava a teoria do «pico petrolífero» e, ao contrário, avançava para a independência energética.
- Em 2011, Washington organizou os motins de Deraa pensando, com isso, provocar um levantamento popular e assim trocar o governo laico sírio pelos Irmãos Muçulmanos. Era o modelo da dita «Primavera Árabe». Ora em 2013, após a derrube de Mohamed Morsi no Egipto, tira as conclusões do fracasso desta experiência e abandona a ideia de confiar o poder nos países árabes a esta Confraria Islamista.
- Em 2014, como a guerra continuasse, Washington decide utilizá-la para cortar o projecto do Presidente Xi Jinping de restauração da «Rota da Seda», o que o obriga a transformar o «Emirado Islâmico no Iraque» em Daesh.
- Em 2015, após a intervenção militar russa, sem abandonar o objectivo anti-chinês que se tinha fixado, Washington acrescenta-lhe um segundo : impedir Moscovo de contestar a sua hegemonia e a manutenção unipolar das Relações internacionais.

Terceira nota : 
As mudanças de objectivo têm forçosamente sido recusadas pelos poderes que sofreram os prejuízos : o Catar no que diz respeito às questões energéticas e os Irmãos Muçulmanos quanto ao derrube de regime. Ora, estes actores são apoiados por poderosos lóbis nos EUA: a Exxon-Mobil —a mais importante multinacional mundial— e a família Rockefeller quanto ao Catar, a CIA e o Pentágono quanto aos Irmãos Muçulmanos.

No campo de batalha, os meios mobilizados pela Rússia atestam, sem equivoco, a superioridade das suas novas armas sobre as da OTAN.

Quarta nota : 
Para os chefes de Estado-maior e comandantes inter-armas do exército dos EUA (CentCom EuCom, PaCom, etc.), o fim do seu domínio, em matéria convencional, não deve permitir contestar o seu estatuto de primeira potência militar do mundo. O que os leva a dessolidarizar-se da CIA quanto ao uso dos Irmãos Muçulmanos, continuando seus aliados a propósito da prevenção da implantação chinesa, e portanto a favor do Daesh (E.I.)

O acordo russo-americano do início de Setembro previa claramente a separação de alguns grupos —cujos líderes foram considerados “frequentáveis” pelas duas partes— de outros jiadistas [1]. Depois estabelecer uma coordenação militar para esmagar os jiadistas. E, finalmente, formar um governo de unidade nacional, incluindo chefes dos grupos que se tinha apartado; dentro do modelo dos governos locais impostos pelos impérios europeus no século XIX ao Império Otomano.

O Pentágono aceitou este acordo sob duas condições : primeiro, cortar a Rota da Seda. O que o levou a bombardear o Exército Árabe Sírio em Deir ez-Zor para impedir que se possa, a termo, contornar o Daesh (E.I.) pelo vale do Rio Eufrates. Depois, trabalhar com os russos, mas não num pé de igualdade.

A primeira condição constitui um acto de guerra contra a Síria, em pleno cessar-fogo, que atinge o conjunto da comunidade internacional. A segunda é evidentemente inaceitável para a Rússia.

Para mascarar o crime cometido pelo Pentágono e pelo Reino Unido em Deir ez-Zor, o MI6 britânico organizou o espectáculo do «bombardeamento» de um comboio humanitário.

Na realidade, este comboio tinha sido revistado pelo Exército Árabe Sírio. Ele não continha armas (ou mais armas) e tinha sido autorizado a passar após o fim do cessar-fogo. Tinha sido fretado pelo Crescente Vermelho sírio, uma ONG ligada ao governo de Damasco e estava destinado às populações sírias das zonas ocupadas pelos jiadistas.

Contrariamente às declarações ocidentais ele jamais foi bombardeado, tal como mostram as imagens difundidas pelo MI6, sob a etiqueta dos «Capacetes Brancos». Em parte nenhuma se vê qualquer cratera ou perfurações das estruturas. O comboio foi atacado no solo, e foi queimado. As imagens de um drone do Exército russo mostram a presença de jiadistas no momento do ataque, quando era suposto a zona estar desmilitarizada.

Pouco importam os factos, os Estados Unidos acusaram a Rússia de ter violado o cessar-fogo, o que ela não fez, e isto quando eles próprios acabavam de o violar ao bombardearem o Exército Árabe Sírio em Deir ez-Zor. A propaganda anglo-saxónica foi repetida, a 21 de Setembro, com descaramento, pelos ministros e presidentes do campo Ocidental, John Kerry (EUA), Petro Poroshenko (Ucrânia), Jean-Marc Ayrault (França) e Boris Johnson (Reino Unido).

Última nota : 
As negociações entre John Kerry e Sergey Lavrov foram retomadas. Elas não tem por objectivo reescrever novamente um acordo de paz sobre o qual já tudo foi dito. Mas, sim, ajudar o Departamento de Estado a vencer as resistências que ele enfrenta no seu próprio país.

About the author: Thierry Meyssan

French intellectual, founder and chairman of Voltaire Network and the Axis for Peace Conference. His columns specializing in international relations feature in daily newspapers and weekly magazines in Arabic, Spanish and Russian. His last two books published in English : 9/11 the Big Lie and Pentagate.

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