A cultura do cancelamento ou ‘cancel culture’ é a remoção “do apoio a figuras públicas em resposta a seus comportamentos ou opiniões. Isso pode incluir boicotes ou recusas em promover seu trabalho pela simples razão de pensar diferente.

Na atual sociedade da cultura de cancelamento, ter uma voz dissidente pode ter um preço alto. De jornalistas a formadores de opinião, atores e políticos, as pessoas que ousam discordar das crenças comumente aceitas pagam o preço – às vezes com suas próprias vidas – por contradizer um movimento de esquerda altamente inflamatório que, apesar de estar no controle do governo há, pelo menos menos meio século, agora está mais encorajado do que nunca para acalmar vozes que opinam de maneira diferente.

A cultura do cancelamento tornou-se tão negativa que aproximadamente 150 influenciadores da esquerda moderada e publicaram uma carta reivindicando o direito de discordar do que chamam de sociedade de cancelamento. Mas como podemos fazer isso sem sermos sujeitos a linchamento público?

“A troca livre de informações e idéias está se tornando cada vez mais restrita”, diz a carta publicada na revista Harper. Os signatários da carta alertaram sobre o perigo da censura que está se espalhando em nossa cultura.

Há uma crescente intolerância em relação aos pontos de vista opostos. Aqueles que pensam diferentemente são publicamente envergonhados e ostracizados. Algo que somente “empobrece o debate público”, necessário, segundo especialistas, para que a sociedade avance.

Sem dissidência, sem paz

Para entender a importância de discordar, é necessário apenas dar uma olhada na ciência, onde o progresso foi alimentado graças à existência do debate.

A ciência questiona tudo. É, exatamente, o oposto do que acontece em outros aspectos da vida – como na política – onde nos deixamos levar pelo raciocínio emocional. Em suma, tons muito diferentes dos das discussões do resto dos mortais que, geralmente, envolvem recriminações duras, como a carta indica.

Talvez o fórum no qual esse problema seja visto com mais clareza seja nas redes sociais, onde as consequências podem variar de insultos a perda de reputação e, até, trabalho.

As mídias sociais tornaram-se câmaras de eco tranquilizadoras, onde os liberais atacam os conservadores e vice-versa e onde não há espaço para debate, já que as pessoas parecem se inscrever para uma conta com o único objetivo de procurar comentários para assassinar os personagens dos comentaristas sem abordar o núcleo de argumento de ninguém.

Em nossa vida cotidiana e particular, também é possível enfrentar situações em que expressar uma opinião pode desencadear um conflito amargo com um chefe, um companheiro, um amigo e um parente. A questão é: por que algumas pessoas ficam tão incomodadas quando há uma diferença de opinião?

Quando alguém não valida uma opinião, a outra pessoa sente que está em jogo sua aceitação do grupo e de si mesma.

Uma das chaves para evitar ferir a auto-estima da outra pessoa e manter o debate vivo é a maneira como a discrepância é expressa. Você precisa ser flexível, ter empatia com o outro, puxar de um tipo de sedução e deixar claro que as idéias expressas também trazem benefícios para o interlocutor.

Anote como fazê-lo:

Usar a primeira pessoa do plural quando existe um conflito é positivo, pois não implica que haja um confronto, mas, sim,  dá a sensação de que há uma equipe que tem um objetivo comum. É um dos melhores recursos. E deixar sempre claro que a visão da outra pessoa é entendida e que, apesar de discordar, é igualmente válida. Dois exemplos de estratégias simples a serem aplicadas.

Além disso, é melhor procurar sempre um local privado. Embora as mídias sociais tenham se tornado as praças públicas do século 20, elas não são assim tão públicas, pois o anonimato e a falta de responsabilidade apenas promovem a existência de campos férteis para o lançamento de insultos, assassinato de personagens e pouco debate.

A partir do exemplo da ciência, também é possível aprender estratégias de discussão saudáveis, como julgar idéias por si mesmas e não de acordo com quem as emite. Além disso, é uma boa idéia se acostumar a receber idéias de várias fontes, questioná-las e contrastá-las sem cancelá-las antes de obter todas as informações.

Sem dissidência, sem conflito?

Você gostaria que fosse simples, mas não é. Evitar opinar de maneira aberta e gratuita não poupa você de se tornar uma vítima da multidão da cultura do cancelamento. Quanto mais você cede aos desejos dessa mulitidão, mais forte é o laço de poder que eles procuram manter. Entregar-se nunca é uma opção.

Mais uma vez, as redes sociais não ajudam nesse empreendimento. Novos canais de comunicação tornam isso cada vez mais difícil, porque damos credibilidade às informações com base no número de vezes que elas foram compartilhadas.

Além disso, vivemos dentro das chamadas ‘câmaras de eco’, que nos fazem ouvir apenas uma versão da história. Esse problema só pode ser resolvido saindo dessas esferas para que aprendamos a ter empatia com pessoas que pensam de maneira diferente, embora esse ato de desvencilhamento de nossa realidade não garanta a compreensão das pessoas que habitam suas próprias câmaras de eco. De fato, mudar para ambientes onde as pessoas mantêm pontos de vista opostos, geralmente, resulta em mais tensão e conflito.

A solução é conseguir discutir as idéias em si e não, simplesmente, atacar o mensageiro. Podemos estabelecer as bases para, pelo menos, poder dialogar entre pessoas que pensem de maneira diferente. Para que isso ocorra, porém, ambas as partes precisam estar dispostas a ouvir ativamente.

Dado que nem tudo está em nossas mãos nesse clima de crescente censura, é inevitável perguntar se há momentos onde é melhor deixar de lado o confronto e optar pelo silêncio para evitar desperdícios desnecessários de energia.

A resposta depende de cada situação. Você sempre deve pensar se a recompensa que receberá da discussão é alta o suficiente em relação ao tempo e energia dedicados a ela.

Por exemplo: discutir com seu cunhado sobre se a política municipal dos parques para cães é adequada ou não, provavelmente, não vai melhorar nossa qualidade de vida em nenhum sentido. No entanto, o debate e a discussão abertos nunca devem ser evitados para que o medo seja atacado ou ostracizado. Somente cada pessoa sabe até onde ele ou ela quer levar a conversa e se obterá algo produtivo com essas discussões.

 

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