Quem não contraiu dívida voluntariamente, herdada do Estado.

Em muitas culturas antigas e modernas, a dívida, como a culpa, implica um vínculo, uma obrigação. Na origem desta ligação, identificamos uma relação jurídica, como aquela que, na religião, une o homem a Deus.

Por meio dela se expressa uma relação de dependência dos viventes quanto aos poderes soberanos e a obrigação de amortizar, ao longo da vida, a energia vital de que foram constituídos depositários.

A forma mais antiga de amortização para pagar a dívida divina da vida é o sacrifício. O poder associado ao culto sacrificial centra-se na vítima, em que os germes do desacordo se polarizam na vida comum, desviando seu curso.

Como título, a dívida é a expressão de um nexo social, cuja interrupção implica culpa pelo seu não cumprimento. Esse nexo também se mostra essencialmente como um poderoso dispositivo de poder.

É claro, com efeito, que a expressão “estar endividado” não significa simplesmente ter “dívidas”. Com ela se expressa algo que, exatamente, não pode ser possuído, e que antes nos possui e a que estamos sujeitos: literalmente, neste horizonte, “estar endividado” indica uma “dívida de vida” que não pode ser superada porque ultrapassa nos.

A dívida, mais precisamente, é um estado que se produz e se alimenta continuamente, porque é a única coisa em que se pode investir, como demonstram as recentes políticas de relançamento da economia.

Hoje, mais do que nunca, “estar endividado” parece coincidir com a condição em que não só é possível entrar num dado momento, porque se identifica com o Estado em que se nasceu, independentemente da situação de pobreza ou riqueza.

Mesmo aqueles que nunca se endividaram voluntariamente, nascem endividados em Estados que transmitem sua própria dívida a todos os que fazem parte deles, antes mesmo de virem ao mundo.

É claro que, à medida que os contextos geográficos, políticos e sociais mudam, e dependendo de haver mais ou menos proteções do estado, o papel e a entidade da dívida também mudam. Um migrante que consegue chegar vivo à costa americana, por exemplo, é obrigado a pagar durante anos a dívida contraída com quem o transportou.

Os estudantes americanos, muito antes de começarem a trabalhar, estão em dívida com os bancos, que anteciparam o pagamento de suas taxas universitárias, e eles já sabem que durante vários anos terão que usar parte de seus ganhos para saldar sua dívida.

Hoje, mais do que nunca, portanto, parece que temos a experiência de que a dívida precede a própria vida, na medida em que não só a precede, mas a determina, expondo-a até ao risco de morte, como mostra a elevada taxa de suicídios por dívidas registradas nos últimos anos.

Mas “dívida” foi explicitamente ligada à “culpa”, especialmente em um momento em que os governos estiveram diretamente envolvidos no colapso econômico global.

Desse modo, reproduz-se uma dívida infinita, que vem materialmente de formas obsessivas de consumo destinadas a compensar a convicção de não estar apto para o que nos é exigido.

A questão da dívida surgiu como um problema específico em alguns países europeus, que têm sido considerados culpados de má gestão do Estado que pode ser paga com “sacrifícios”.

Políticas recentes de relançamento e recuperação econômica, críticas ao sistema promotor do regime de austeridade, opuseram-se explicitamente ao culpado paradigma do rigor, propondo-se como alternativas.

Porém, mais do que uma alternativa real, a linha emergente de desenvolvimento econômico tornou-se, no horizonte deste trabalho, o sintoma de uma opacidade ainda não totalmente investigada e no cerne de um problema mais amplo que requer novas análises.

Em suma, o atual arranjo da dívida parece, na verdade, um mecanismo ainda mais complexo do que o legal, ao qual pertence em muitos aspectos.

Hoje, a dívida não é, ou não é só, uma condição que deve ser alterada – como parece indicar o mandato autoritário dos sacrifícios impostos pelas políticas de austeridade – nem simplesmente a última e vazia expressão do vínculo jurídico que, por implicar a vida na esfera da lei nunca pode ser totalmente assumida.

A dívida, mais precisamente, é um estado que se produz e se alimenta continuamente, porque é a única coisa em que se pode investir, como demonstram as recentes políticas de relançamento da economia.

Na economia de mercado, que se tornou uma instituição política desde a virada neoliberal, uma mudança radical está em curso no campo da produção normativa.

A função de culpa ligada à economia da dívida muda à medida que mudam as condições que a produziram e as categorias que operam a partir dessa mudança não são mais apenas as de natureza jurídica, mas sim aquelas ligadas à esfera econômica da dívida.

A culpa, aqui, não acaba sendo apenas a expressão de um vínculo que prejudica pelo mero fato de existir. É a condição que ocorre no momento em que, com as políticas neoliberais, as formas de valorização da vida correspondem plenamente à mesma valorização do capital, possibilitando assim que cada um de nós se torne um “capital humano”.

As capacidades individuais, em si mesmas potencialmente abertas, são assim transformadas pela frustração de nunca se sentir à altura da tarefa.

Por isso, é uma autocrítica constante origem de um sentimento de culpa, cuja característica fundamental não é apenas ser em relação a um vínculo jurídico, mas sim nascer de uma modalidade de avaliação econômica, que se traduz imediatamente em possibilidades de investimento no que nos falta.

Desse modo, reproduz-se uma dívida infinita, que vem materialmente de formas obsessivas de consumo destinadas a compensar a convicção de não estar apto para o que nos é exigido.

Devolver possibilidades ao que tende a ser imposto no momento apenas como falta é precisamente o que devemos tentar fazer para mudar as condições do que parece ser uma prisão sem possibilidade de saída.

Se é verdade que toda sociedade é capaz de produzir o tipo de homem que necessita, também é verdade que para dar um passo nessa direção, pode ser útil estudar os mecanismos da “máquina antropogênica” de que as sociedades neoliberais estão equipadas; uma máquina em muitos aspectos diferente da legal, cujo aperfeiçoamento interessou a muitas sociedades antigas e modernas, mas por isso não é mais fácil reativá-la de maneira diferente do que a carreira sem sentido empreendida até hoje.

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