|Saturday, June 6, 2020
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A outra ameaça do Coronavírus 


Governos respondem à propagação da doença com pulso de ferro e iniciativas ameaçadoras.

Tudo aconteceu rapidamente, apenas 10 dias que transformaram o mundo que conhecemos.

Os governos obcecados com redução de dívidas anunciam uma ajuda multimilionária para impedir o fechamento de empresas e o abandono de trabalhadores.

Ao mesmo tempo, aprovam limitações às liberdades sem o consentimento dos cidadãos.

Na Costa Rica, a congressista Carmen Chan pediu que se considerasse a imposição de um toque de recolher à força contra a população.

Essa medida abusiva não existe no sistema jurídico da Costa Rica e impor tal medida seria uma violação direta das garantias individuais e constitucionais. Mas, não impediu muitos legisladores, sabendo que tal idéia seria ilegal, a promoverem tal medida e sua possível adoção.

Nem na Costa Rica nem no resto do mundo. Ninguém sabe como a crise do coronavírus terminará. Mas, uma conseqüência imediata foi o retorno do Estado, com todo o seu peso, força e capacidade de prevalecer no centro não apenas do tabuleiro geopolítico, mas, também, no mais íntimo de nossas vidas.

As fronteiras tornaram-se obsoletas durante décadas de globalização e integração supranacional, mas, diante da epidemia que está se espalhando pelo planeta, as fronteiras terrestres, de repente, fazem sentido.

A antiga organização estatal – ação pública, administração, tecnocracia – atua como escudo contra um organismo microscópico que infecta sem distinguir nacionalidades.

“Estamos restaurando uma ordem desatualizada porque não temos outras soluções”, diz Bertrand Badie, professor emérito do Instituto de Ciência Política de Paris e autor do artigo  L´hégémonie contestée. “O mais perturbador sobre essa crise é que não há alavanca global para responder a ela.

Aqueles com as alavancas à mão eram os Estados. A alavanca das fronteiras, por exemplo. Barreiras à livre circulação começaram a ser erguidas desde janeiro depois que a China anunciou a detecção do novo patógeno SARS-CoV-2 que causa a doença Covid-19 na cidade de Wuhan.

Mas, acelerou nesse março fatal, quando o coronavírus atingiu a Europa com toda a sua força para torná-la o epicentro da pandemia. A cronologia é estonteante. No dia 11, o presidente dos EUA, Donald Trump, decretou a proibição de voos vindos da União Europeia (UE).

No dia 17, a UE expulsou os cidadãos de países do terceiro mundo. Enquanto isso, as fronteiras reapareceram no espaço Schengen, onde controles não deveriam existir. A Comissão Europeia interveio para remover as restrições à exportação de suprimentos médicos entre parceiros.

Há uma reflexão nacionalista que sempre surge diante de ameaças. O fim de uma era está no ar, como em 1914, quando o “Mundo de Ontem” entrou em colapso.

Era o mundo onde as pessoas iam aonde queriam e ficavam pelo tempo que desejavam; não havia licenças ou vistos. Agora, essas fronteiras, com seus imigração esua polícia se tornaram barreiras de aço.

Os ecos da primeira desglobalização ressoam hoje. O renascimento nacionalista e a imposição de barreiras vêm antes da epidemia. Trump era o apoiador mais visível e poderoso.

Strobe Talbott, vice-secretário de Estado da Administração Clinton e ex-presidente da Brookings Institution, acredita que instintos nacionalistas e desrespeito à cooperação internacional são a resposta errada. “Se a raça humana pode enfrentar essa praga, deve passar da desglobalização para a globalização inteligente”, diz ele.

Mas, se muros são erguidos agora – entre países, dentro desses países, em casas – é porque essa emergência de saúde impõe. O presidente francês Emmanuel Macron promoveu “uma Europa que protege” à medida que  o termo “o Estado que protege” surge.

Os europeus comprometeram, segundo estimativas de Bruxelas, cerca de 160 bilhões de euros em gastos orçamentários e 1,6 trilhão em garantias para manter a economia viva.

Palavras tabus como “nacionalização” estão se tornando populares novamente. Na Espanha, o estado de alarme; na França, uma de urgência sanitária.

É como se o Estado, dominado pela pressão que vem de cima, como instituições supranacionais, multinacionais e poderes financeiros; e dominado pela pressão que vem de baixo, como potências locais – preenchesse um vazio.

O cientista político Josep Colomer, autor de O Governo Mundial de Especialistas considera que, diante do coronavírus, tanto a coordenação global quanto as entidades locais e organizações não-governamentais foram acionadas.

“Uma pandemia global é uma das manifestações mais claras da globalização, isto é, da interdependência global das relações humanas”.

No nível global, a Organização Mundial da Saúde funciona como um departamento do governo mundial e orienta e auxilia os governos dos países.

Mas, globalização também significa complexidade e fragmentação. Ou seja, o oposto da máxima simplificação implícita na idéia de soberania que se baseia em um único centro de decisão absoluta e final.

Sempre há algo positivo em uma crise e é nisso que todos estão cientes de ter o mesmo interesse. Todo mundo está na mesma situação e é obrigado a reagir coletivamente.

Ronald Reagan disse isso em outras palavras em 1987 com a Cortina de Ferro ainda de pé. “Com nossa obsessão pelos antagonismos do momento, esquecemos tudo o que une os membros da humanidade”.

“Talvez precisemos de uma ameaça externa universal para reconhecer nosso vínculo comum”, declarou. “Às vezes, penso na rapidez com que as diferenças no mundo desapareceriam se enfrentássemos uma ameaça alienígena”.

Ele estava falando sobre alienígenas. Mas, poderia estar se referindo ao Coronavírus.

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About the author: Luis R. Miranda

Luis R. Miranda is an award-winning journalist and the founder & editor of The Real Agenda News. His career spans over 23 years in every form of news media. He writes about environmentalism, education, technology, science, health, immigration and other current affairs. Luis has worked as on-air talent, news reporter, television producer, and news writer.

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