A era da dependência parcial ou total acabou. A lição mais importante que o mundo aprendeu e que as nações começarão a colocar em prática é que a auto-suficiência é fundamental.

As ruas desertas se encherão novamente e deixaremos nossas tocas, iluminadas pela luz das telas, piscando com alívio. Mas, o mundo será diferente de como o imaginamos no que pensávamos ser em tempos normais.

Esta não é uma quebra temporária em um equilíbrio outrora estável. A crise pela qual estamos passando é uma virada na história.

A era da globalização chegou ao fim. Um sistema econômico baseado na produção global e em longas cadeias de suprimentos está sendo transformado em um sistema menos interconectado. Nasce um mundo mais fragmentado que, de certa forma, pode ser mais resistente.

O outrora formidável Estado Britânico está se reinventando rapidamente em uma escala nunca vista antes. O governo, agindo com poderes draconianos de emergência autorizados pelo Parlamento, lançou a ortodoxia econômica ao mar.

Abalado por anos de austeridade estúpida – como as Forças Armadas, a polícia, prisões, bombeiros, zeladores e faxineiros – o Serviço Nacional de Saúde está em alerta, mas, graças à nobre dedicação de seus trabalhadores, o vírus será derrotado.

Nosso sistema político sobreviverá intacto. Governos de todo o mundo estão lutando entre suprimir o vírus e esmagar a economia. Muitos tropeçarão e cairão.

Na visão a que os intelectuais progressistas se apegam, o futuro é uma versão mais bonita do passado recente. Isso, certamente, os ajuda a preservar uma certa aparência de sanidade.

Tal visão, também, prejudica o que é atualmente o nosso atributo mais vital: a capacidade de se adaptar e criar diferentes modos de vida. A tarefa a seguir é construir economias e sociedades mais duráveis, mais independentes e menos dependentes da anarquia do mercado global.

Isso não significa mudar para o localismo de pequena escala. A população humana é grande demais para a auto-suficiência local ser viável e a maior parte da humanidade não está disposta a retornar às pequenas comunidades fechadas de um passado mais distante.

Mas o tipo de hiper globalização visto nas últimas décadas não vai voltar. O vírus expôs fraquezas fatais no sistema econômico corrigido após a crise financeira de 2008.

O corporativismo está falido

Apesar de todo o seu palavreado sobre liberdade e escolha, na prática, o corporativismo, auxiliado pelo globalismo, foi um experimento para dissolver todas as fontes tradicionais de coesão social e legitimidade política e substituí-las pela promessa de um aumento no padrão de vida material. Agora, esse experimento chegou ao fim.

Para acabar com o vírus, um fechamento econômico não era essencial, mas governos e estados seguiram as ordens de políticos não eleitos, apesar de terem fracassado várias vezes em todas as oportunidades que tiveram para mostrar seu valor.

Quando a economia recomeçar, será em um mundo no qual os governos agirão para conter a influência do mercado global e as recomendações de organizações internacionais como a OMS, a ONU e a OMC; criaturas obsoletas cujas vidas devem chegar ao fim.

Uma situação em que grande parte dos suprimentos médicos mais necessários do mundo seja produzida na China ou em qualquer outro país exclusivamente não será tolerada.

A produção neste e em outros setores sensíveis será devolvida aos territórios dos Estados por razões de segurança nacional. A ideia de que um país como o Reino Unido possa, gradualmente, eliminar a agricultura e depender da importação de alimentos será descartada como um absurdo.

O setor de companhias aéreas contrairá porque as pessoas viajarão menos e as fronteiras rígidas se tornarão uma característica lógica e duradoura do cenário global. O objetivo insignificante da eficiência econômica não será mais viável para os governos.

A questão é: o que substituirá o aumento do padrão de vida material como fundamento da sociedade? Algumas pessoas pedem uma “economia de estado estacionário” que defenda o despovoamento e uma redução considerável na produção e no consumo.

O sistema econômico do estado estacionário seria uma economia de mercado na qual a concorrência seria incentivada. A inovação tecnológica continuaria e, com ela, a arte de viver seria aprimorada.

A ideia é atraente. O crescimento seria determinado por cada país e nenhuma autoridade mundial existiria para impor qualquer interesse particular.

Ao contrário do mantra progressivo ditado pelos líderes globais, os problemas globais, nem sempre, têm soluções globais. As divisões geopolíticas excluem qualquer semelhança com um governo mundial e, se existisse, os estados atuais competiriam para controlá-lo.

A crença de que a crise pode ser resolvida com um surto sem precedentes de cooperação internacional é ingenuidade na sua forma mais pura.

Nesse novo mundo, a expansão econômica seria negociada de maneira bilateral ou trilateral.

Se acabarmos aceitando os limites do crescimento, será porque o governo faz da proteção de seus cidadãos seu objetivo mais importante. Os estados que não procurarem o benefício de seus cidadãos deixarão de existir.

A pandemia acelerou, subitamente, a mudança geopolítica. A disseminação descontrolada do vírus no Irã, somada ao colapso dos preços do petróleo, poderia desestabilizar seu regime teocrático.

Com a queda de suas receitas, a Arábia Saudita também está em perigo. Sem dúvida, alguns terão prazer em dizer adeus a ambos. No entanto, não há garantia de que um colapso no Golfo traga algo além de um longo período de caos.

Apesar de anos conversando sobre diversificação, os regimes da região permanecem reféns do petróleo e, mesmo que os preços se recuperem, o impacto econômico da paralisação global será devastador.

Por outro lado, o Leste Asiático certamente continuará avançando. Até agora, os países que deram a resposta mais eficaz à epidemia foram Taiwan, Coréia do Sul e Cingapura.

A posição da China é mais complexa. Dado seu histórico de encobrimentos de estatísticas, é difícil avaliar seu desempenho durante a pandemia. Obviamente, o país não é um modelo que qualquer democracia possa ou deva imitar.

Como o novo Hospital Nightingale do Serviço Nacional de Saúde demonstra, regimes autoritários não são os únicos capazes de construir hospitais em duas semanas. Ninguém sabe qual foi o custo humano total do fechamento chinês.

Ainda assim, o regime de Xi Jinping parece ter se beneficiado da pandemia; o vírus forneceu vários argumentos para expandir a vigilância do Estado e introduzir um controle político ainda mais rígido.

Em vez de desperdiçar a crise, o presidente a está usando para aumentar a influência de seu país. A China está infiltrando-se  na União Européia com sua ajuda a alguns governos nacionais, como a Itália.

No entanto, nem tudo o que a China faz visa o bem. Muitas máscaras e kits de teste fornecidos pela China apresentaram defeito, mas isso não parece ter afetado a campanha de propaganda de Pequim.

A resposta da União Europeia à crise revelou as suas fraquezas essenciais. Poucas idéias são tão desprezadas pelas mentes superiores quanto a soberania. Na prática, isso significa a capacidade de executar um plano de emergência abrangente, coordenado e flexível, como o plano aplicado pelo Reino Unido e outros países.

As medidas já adotadas superam as medidas tomadas durante a Segunda Guerra Mundial e, no seu aspecto mais importante são o oposto do que foi feito na época, quando a população britânica foi alvo de uma mobilização sem precedentes e o desemprego caiu drasticamente.

Hoje, além dos que prestam serviços essenciais, os trabalhadores britânicos foram dispensados. Se a situação continuar por muitos meses, o fechamento exigirá uma socialização ainda maior da economia.

É duvidoso que as estruturas neoliberais deagastadas da União Europeia sejam capazes de fazer algo semelhante. As regras, até agora sacrossantas, foram violadas pelo programa de compra de títulos do Banco Central Europeu e pelo relaxamento dos limites dos auxílios estatais à indústria.

Mas, a resistência de países do norte da Europa, como Alemanha e Holanda, em compartilhar a carga tributária pode impedir o resgate da Itália, um país grande demais para ser esmagado como a Grécia, mas, possivelmente, muito caro para ser salvo. Como disse o Primeiro-Ministro Italiano Giuseppe Conte em março, “se a Europa não enfrentar esse desafio sem precedentes, toda a estrutura européia perderá a razão de ser”.

O Presidente Sérvio Aleksandar Vucic foi mais direto e realista: “A solidariedade europeia não existe … Isso foi um conto de fadas. O único país que pode nos ajudar nessa situação difícil é a República Popular da China. Aos outros, obrigado por nada ”.

A principal falha da União Europeia é que ela é incapaz de cumprir as funções de proteção de um Estado. A decomposição da zona do euro foi prevista tantas vezes que pode parecer impensável. No entanto, com as tensões que enfrenta atualmente, a desintegração das instituições europeias não é um exagero.

A livre circulação já foi suspensa. A recente chantagem do PresidenteTturco Erdogan, ameaçando a UE de permitir que os migrantes cruzem as fronteiras de seu país e o desfecho na província síria de Idlib pode levar à fuga para a Europa de centenas de milhares, até milhões, de refugiados.

É difícil imaginar o que “distanciamento social” significa nos enormes, lotados e insalubres campos de refugiados. Outra crise de emigração adicionada à pressão sobre um euro disfuncional pode ter resultados terríveis.

Se a União Europeia sobreviver, pode parecer o Império Sacro Romano em seus últimos anos, um fantasma que subsiste por gerações enquanto o poder é exercido em outro lugar.

Decisões peremptórias já estão sendo tomadas pelos estados nacionais. Como o centro político não é mais uma força de liderança e, com grande parte da esquerda agarrada ao fracassado projeto europeu, muitos governos serão dominados pela direita ideológica.

A Rússia exercerá uma influência crescente sobre a União Europeia. Na batalha com os Sauditas, que foi o gatilho para o colapso do preço do petróleo em março de 2020, Putin levou a melhor. Enquanto que para os Sauditas o limiar da lucratividade fiscal – o preço necessário para pagar pelos serviços públicos e manter a solvência do Estado – é de cerca de oitenta dólares por barril, para a Rússia pode ser menos da metade.

Ao mesmo tempo, Putin está consolidando a posição de seu país como potência energética. Os gasodutos submarinos Nord Stream que atravessam o Báltico garantem o fornecimento confiável de gás natural à Europa, tornando-o dependente da Rússia e permitindo o uso de energia como arma política. Como a China, a Rússia entrou em cena na União Européia enviando médicos e equipamentos para a Itália.

Nos Estados Unidos, Donald Trump acredita que as proteções devem estar em vigor enquanto a economia puder se manter à tona. Um colapso do mercado de ações semelhante ao de 1929 e níveis de desemprego piores que os da década de 1930 representariam uma ameaça existencial à sua presidência.

Por outro lado, considerando o sistema governamental descentralizado do país, um sistema de saúde desastroso, milhões de pessoas sem seguro de saúde, uma enorme população carcerária com um grande número de idosos e doentes e cidades onde um número significativo de sem-teto já sofrem de uma epidemia generalizada de opióides, restringir o fechamento pode significar que o vírus está se espalhando incontrolavelmente com efeitos devastadores. Trump não está sozinho em assumir esse risco. Até agora, a Suécia não impôs nada semelhante ao confinamento obrigatório.

Ao contrário do programa britânico, os dois trilhões de dólares do plano de estímulo de Trump são, em grande parte, outro resgate às empresas, responsáveis ​​por criar e manter o desemprego baixo. Nos EUA, mais e mais americanos aprovam a maneira como Trump administrou a epidemia. O que acontecerá se o presidente sair dessa catástrofe com o apoio da maioria dos americanos?

Mesmo antes da chegada do vírus, a posição da América no mundo estava mudando irreversivelmente. Trump é a principal razão pela qual a hiper globalização e a velha ordem mundial implantada após o final da Segunda Guerra Mundial estão em colapso desde 2016. O vírus quebrou um equilíbrio imaginário e acelerou um processo de desintegração que vem ocorrendo há anos.

À medida que a globalização progrediu, o risco de espalhar doenças infecciosas também progrediu. A chamada gripe espanhola de 1918-1920 tornou-se uma pandemia global em um mundo sem transporte aéreo em massa, então imagine o que um vírus letal pode fazer no mundo globalizado de hoje.

Do seu ponto de vista, assim como de outros, os ocasionais surtos catastróficos de doenças infecciosas permaneceram surtos repentinos e imprevisíveis na normalidade que, em essência, escapava a qualquer explicação histórica. Muitos estudos subsequentes chegaram a conclusões semelhantes.

No entanto, persiste a idéia de que as pandemias são incidentes transitórios e não parte integrante da história. Por trás disso, está a crença de que os seres humanos não fazem mais parte do mundo natural e podem criar um ecossistema autônomo, separado do resto da biosfera.

Covid-19 nos diz que não é esse o caso. Só podemos nos defender contra essa praga usando a ciência. Testes maciços de anticorpos, não vacinas, serão decisivos. Mas, se quisermos ser menos vulneráveis ​​no futuro, teremos que fazer mudanças permanentes em nosso modo de vida.

A vida cotidiana já mudou. Em todos os lugares há um sentimento de fragilidade. Além disso, o sentimento de instabilidade não afeta apenas a sociedade. O mesmo se aplica à posição dos seres humanos no mundo. Imagens mostram ausência humana de diferentes maneiras.

Covid-19 não traz o fim do mundo de forma alguma. O que, geralmente, é chamado de apocalipse é o curso normal da história. Muitos ficam com trauma duradouro, mas o animal-humano é muito forte e versátil para que esses distúrbios o destruam.

A vida continua, embora diferente de como era antes. Quem descreve o momento presente não percebeu como os seres humanos se adaptam a situações extremas.

A tecnologia nos ajudará com a adaptação às condições extremas atuais. A mobilidade física pode ser reduzida ao mover muitas de nossas atividades para o ciberespaço.

Escritórios, faculdades, universidades, consultórios médicos e outros locais de trabalho podem mudar para sempre. As comunidades virtuais organizadas durante a epidemia fizeram possível que as pessoas se conhecessem melhor do que nunca.

Mas, mesmo essa nova realidade pode não ser perfeita. O ciberespaço depende de infraestrutura que pode ser danificada ou destruída por guerra ou desastre natural. A Internet nos ajuda a evitar o isolamento que acompanhou epidemias no passado, mas não permite que os seres humanos possam escapar da mortalidade ou evitem a ironia do progresso.

O que acontecerá com o progresso?

O vírus nos ensina não apenas que o progresso é reversível – um fato que até os progressistas parecem ter entendido – mas que pode minar suas próprias bases.

Para citar o exemplo mais óbvio, a globalização trouxe grandes avanços. Graças a isso, milhões de pessoas foram retiradas da pobreza. Agora, essa conquista está em risco. A deglobalização em andamento é filha da globalização.

Ao mesmo tempo em que a perspectiva de um padrão de vida em constante crescimento diminui, outras fontes de autoridade e legitimidade ressurgem. Seja liberal ou socialista, o pensamento progressista detesta a identidade nacional com intensidade apaixonada.

A história está cheia de episódios que mostram como pode ser mal utilizada. No entanto, o Estado-nação está se reafirmando como a força mais poderosa para conduzir ações em larga escala. Enfrentar o vírus requer um esforço coletivo.

É onde o Estado Protetor entra em jogo. Em essência, o estado britânico sempre foi Hobbesiano. A paz e um governo forte têm sido suas prioridades fundamentais. Ao mesmo tempo, este estado Hobbesiano confiou no consentimento, especialmente em tempos de emergência nacional. A proteção contra o perigo foi imposta à liberdade de interferência do governo.

Quanto dessa liberdade retornará às pessoas, após o auge da pandemia, é uma pergunta sem resposta. Não parece que a solidariedade obrigatória do socialismo seja do agrado da maioria, mas, talvez, as pessoas aceitem um regime de biovigilância em prol de uma melhor proteção para sua saúde.

Embora o tamanho do estado possa não aumentar em todos os casos, sua influência será generalizada e, de acordo com os critérios do velho mundo, mais intrusiva. O governo pós-liberal será a norma em um futuro próximo.

Somente reconhecendo as fraquezas das sociedades liberais podemos preservar seus valores mais essenciais. Isso inclui, juntamente com a legitimidade, a liberdade individual que, além de valiosa em si mesma, constitui uma verificação necessária do governo.

Para quase todos, a segurança e o sentimento de pertencer a algum lugar são igualmente importantes. O liberalismo tem sido uma negação sistemática desse fato.

Uma vantagem da quarentena é que ela pode ser usada para renovar ideias. Limpar nossa mente e pensar em como viver em um “novo mundo” é, agora, a nossa tarefa. Para aqueles de nós que não atuamos nas linhas de frente, isso deve ser suficiente enquanto o confinamento durar.

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