Em um artigo recente, escrevi sobre como a felicidade se tornou uma obsessão doentia. É impossível ser feliz o tempo todo e a maioria das pessoas nem entende o que significa ser feliz.

Incrivelmente, a busca pelo sucesso, não a saúde ou a felicidade, assumiu um papel fundamental na sociedade moderna, mesmo que o preço do sucesso, se alcançado, seja extremamente alto para o dinheiro pagar por isso.

Uma das tendências que as pessoas que desejam ter sucesso normalmente não valorizam é ​​a saúde. As mulheres decidem não ter filhos para poder atingir o sucesso profissional mais cedo na vida, para parecerem bem-sucedidas e independentes de si mesmas e de outras pessoas.

Homens, que morrem mais cedo e adotam estilos de vida mais perigosos que as mulheres, tanto no trabalho quanto na vida, sofrem, ainda mais, as consequências de “serem bem-sucedidos”.

Consultar o travesseiro não está mais na moda

Existem cursos de treinamento para empreendedores que detalham quantas horas serão dedicadas ao sono e recomendações que circulam na Internet. Tais cursos recomendam dormir três horas seguidas e tirar três sonecas de 20 minutos ao longo do dia.

É um costume associado ao sucesso do trabalho. De Elon Musk aos principais executivos da maioria das empresas multinacionais, não é incomum que o sucesso dos executivos seja atribuído à alegada virtude de reduzir ao máximo o tempo que passam dormindo.

A ciência alerta que roubar horas de descanso entre os lençóis tem um preço para a saúde: pouco sono afeta o desempenho cognitivo, o comportamento e o metabolismo. Com essa estratégia, o preço do sucesso é a saúde.

A relação entre o tempo de sono e o sucesso profissional é produto de uma sociedade pós-industrial.

Com a luz elétrica, desaparece o conceito de dormir oito horas seguidas e o gerenciamento do trabalho noturno. Mas, com o tempo, surge a ideia de que quem precisa de poucas horas de sono é mais produtivo.

Dormir por mais horas é mais produtivo

Na prática, a maioria das pessoas precisa de boas horas de sono, entre sete e oito horas, alertam os especialistas, e não se pode dizer que se está desperdiçando tempo em uma tarefa improdutiva.

Uma das funções do sono é processar e consolidar o aprendizado, a atenção e a memória. Grandes gênios fizeram grandes descobertas ao acordar após um bom sonho.

Dormir significa continuar trabalhando porque o cérebro limpa o bombardeio de informações acumuladas durante o dia. Nossa biologia está preparada para curtos períodos de falta de sono em situações estressantes ou urgentes, mas não a longo prazo.

Numerosos estudos revelaram que o hábito de dedicar apenas algumas horas ao sono reduz o desempenho cognitivo, causa déficit na atenção e perda da capacidade de tomar decisões, além de aumentar os estados de estresse, ansiedade e depressão.

Os seres humanos são “animais circadianos”, programados para ciclos de sono e vigília com duração de 24 horas. Dormir algumas horas é um tipo de agressão fisiológica ao nosso corpo e, em particular, ao cérebro.

Dormir menos cronicamente altera o padrão neuro-hormonal, com problemas cognitivos e emocionais que resultam em dificuldades na aquisição de novos aprendizados e causam problemas para arquivar novas informações. Além disso, há um aumento do nervosismo e da ansiedade até o aparecimento de distúrbios alucinatórios em casos mais extremos.

Na ausência do sono, mais doenças aparecerão

Pensar que dormir é perder tempo tem consequências para a saúde. Algumas, como sonolência e perda de atenção, são notadas no dia seguinte, enquanto outras se manifestam a longo prazo, como aumentar o risco de câncer, doenças cardiovasculares e distúrbios neurodegenerativos.

Alguns estudos mostram que a função do sono evita substâncias tóxicas, como a proteína beta-amilóide, que, se depositada excessivamente no cérebro, pode se tornar um mecanismo que favorece o aparecimento da doença de Alzheimer.

Pouco sono, além de criar sonolência, falta de concentração e memória, aumenta o risco de hipertensão, distúrbios metabólicos e um aumento nos níveis de glicose que implica maior risco de desenvolver diabetes.

Promove, também, o apetite, o que pode levar ao excesso de peso. A falta de dormir leva as pessoas a beliscarem ou beberem bebidas açucaradas ou com cafeína. E mudar o gerenciamento da saciedade também atrapalha o sono.

Outra questão importante sao os efeitos do pouco sono na saúde quando você acorda muito cedo.

Durante as fases do sono REM e não REM, ocorre uma grande convulsão hormonal e neurofisiológica necessária para reparar o organismo e o cérebro.

Acordar muito cedo não causa, necessariamente, alterações desde que o sono tenha sido suficientemente restaurador. É muito importante que um ciclo completo de sono seja concluído.

Cada ciclo dura 80 minutos e precisamos dormir cinco ou seis ciclos todas as noites. Se acordarmos sem completar o ciclo, teremos mais chances de nos sentirmos cansados, nervosos e menos cognitivamente eficazes.

Por mais que nos esforcemos, a escolha das horas de sono não é nossa, mas do cérebro, uma resposta da programação genética.

No hipotálamo, existe um centro regulador do sono, o zeitgeber, que funciona como um sincronizador para evitar o interrompimento dos ciclos de vigília e sono.

Apenas uma pequena porcentagem da população pode funcionar bem com um número reduzido de horas de sono devido a uma mutação de genética. Apenas cerca de 3% das pessoas podem funcionar bem com menos de seis horas de sono sem prejudicar sua saúde.

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