O Vaticano não é santo ou impecável como muitos seguidores acreditam. É exatamente o oposto e sua liderança se recusa a “limpar a casa”.

[dropcap color=”black”]A[/dropcap] Cidade do Vaticano detém 50 milhas de documentos secretos escondidos do público. Ninguém tem acesso a tais documentos e ninguém sabe os seus conteúdos. Eles estão escondendo detalhes sobre escândalos relacionados com pedofilia, homossexualismo, corrupção, lavagem de dinheiro e o recebimento de pagamentos em processos de canonização. Estes são, apenas, alguns exemplos em uma longa lista de casos que a Santa Sé mantém escondidos por trás de suas paredes rochosas.

Parece que condutas irregulares e transações ilegais são admissíveis para algumas pessoas contanto que o Papa Francisco diga que está  fazendo alguma coisa para resolver o assunto. De acordo com Paul Vallely, um escritor do The Guardian, o Vaticano é dirigido por “um Papa inflexível e implacável, que tem usado uma vassoura nova para varrer todos os escândalos.” As declarações de Vallely não poderiam estar mais longe da verdade. Ele mesmo se contradisse em seu artigo de opinião publicado em 06 de novembro.

A realidade mostra que, se o Papa Francisco é dono de uma vassoura, ele a tem usado somente para varrer os escândalos para debaixo do tapete, em vez de limpá-los. Vallely iguala pequenos retoques como grandes realizações de Francisco. Por exemplo, em vez de fazer algo sobre os milhares de casos de abuso infantil que ocorreram em todo o mundo ou terminar com a transferência de dinheiro vindo do tráfico de drogas através das contas do Banco do Vaticano, o Papa ordenou a detenção de um clérigo que, supostamente, ajudou a vazar detalhes secretos sobre a desonestidade do Vaticano.

Os escândalos que assolam o Vaticano hoje não são novidade. A Cidade do Vaticano tem visto inúmeros e contínuos casos de corrupção que remontam à Alemanha nazista. O Bispo Alois Hudal, encarregado de um colégio de formação de padres falou abertamente sobre seu apoio aos nazistas. “Um telegrama recentemente descoberto que mostra uma conversação entre Hudal e Hitler incrimina o padre ainda mais”, explica Listverse.com. O Banco do Vaticano, popularmente disfarçado como Instituto para as Obras Religiosas, tornou-se um nome familiar em escândalos que começaram com o colapso do Banco Ambrosiano na década de 1980.

O Banco Católico facilitou empréstimos não garantidos para empresas panamenhas fantasmas com operações que acabaram com o colapso do Banco Ambrosiano. Mesmo depois de negar qualquer irregularidade, o Banco do Vaticano foi forçado a pagar 224 milhões de dólares aos credores. Por trás do colapso do Ambrosiano, foram descobertas práticas de lavagem de dinheiro para as quadrilhas mafiosas italianas. O presidente da instituição, Roberto Calvi, se enforcou ou foi assassinado em conexão com este escândalo. Ele foi encontrado pendurado na Ponte Blackfriars em Londres com tijolos nos bolsos.

A corrupção no Banco do Vaticano foi seguida por acusações de redes de prostituição e redes de homossexuais. Angelo Balducci, um membro do grupo de elite “Cavalheiros de Sua Santidade”, estava envolvido em um escândalo cujas alegações incluíam corrupção e envolvimento em uma rede de prostituição gay. “As autoridades italianas descobriram a rede de prostituição enquanto investigavam Balducci, um proeminente empresário, em alegações de corrupção. Transcrições de escuta publicadas pelo jornal italiano La Repubblica revelaram conversas detalhadas entre Balducci e Ehiem sobre o empreendimento de prostituição”, relatou Listverse.com em 14 de Julho, 2014.

A Igreja tem sido abalada por suas próprias associações com organizações criminosas poderosas da Itália, incluindo a máfia siciliana, a calabresa Ndrangheta e a Camorra. Não só o Vaticano se recusou a denunciar os crimes da Máfia como também negou que a máfia, sequer, existia. As relações do Vaticano com a máfia começou no início de 1900, quando a Igreja tratou com poderes alternativos ao governo italiano em uma tentativa de combater a sua autoridade. O Papa Francisco tem se limitado a dizer que os membros da Máfia se arrependam de seus pecados.

O Vaticano, também, se envolveu com tráfico de crianças. Hospitais administrados pelo Vaticano costumavam tirar recém-nascidos das mãos de suas mães, alegando que os bebês haviam faleciso durante o parto ou imediatamente após o parto. Médicos, enfermeiros e sacerdotes estavam envolvidos em um esquema para, depois, vender os bebês a outras famílias por grandes somas de dinheiro. Estima-se que cerca de 300.000 crianças foram roubadas de seus pais para serem vendidas como mercadoria.

O que o Vatileaks II revela?

As despesas estão fora de controle. Documentos mostram que as contas pertencentes ao Papa Paulo VI e ao Papa João Paulo I no Banco do Vaticano estavam carregadas com dinheiro e que a Igreja possui mais de 5.000 propriedades somente na cidade de Roma.

A revelação dos novos documentos controversos conhecidos como Vatileaks II terminou com a prisão dos padres Lucio Balda e Francesca Chaouqui.

O sacerdote espanhol, ligado à Opus Dei, permanece preso enquanto a ex-conselheira do Vaticano alega que é inocente de qualquer delito.

O primeiro e o segundo Vatileaks têm um homem em comum. O jornalista Gianluigi Nuzzi. Ele escreveu o livro Sua Santidade, com vazamentos de informação de Paolo Gabrielli, o mordomo do Papa Bento XVI, que revelou os documentos que foram publicados no livro. Gabrielli ainda está na prisão por seu suposto papel em revelar detalhes sobre os escândalos do Vaticano.

Na quinta-feira, mais dois livros foram publicados. Ambos são baseados em documentos supostamente vazados por pessoas de dentro do Vaticano. Via CrucisAvarizia por Gianluigi Nuzzi e Emiliano Fittipaldi. Ambos revelam irregularidades nas finanças da Santa Sé e da persistência de privilégios.

Os livros também falam sobre as tensões no Vaticano e os graves problemas econômicos em seu sistema de pensões. Em fevereiro de 2014, o fundo de pensão apresentou um déficit de cerca de 800 milhões de euros. Em resposta, e como bom burocrata, o Papa decidiu criar uma comissão para investigar os escritórios econômicos e administrativos da Santa Sé, o mesmo escritório que foi coordenado pelo padre espanhol agora na prisão.

Os documentos do Vatileaks mostram que “há uma total falta de transparência nas contas da Santa Sé”. Os documentos incluem transcrições de conversas privadas entre o Papa e alguns cardeais. Francisco diz nessas gravações que “os gastos estão fora de controle” e que “10 milhões foram perdidos em um investimento equivocado na Suíça”.

Nas transcrições, os documentos mostram detalhes de uma conversa entre o Papa Francisco e o ecônomo da Arquidiocese de Buenos Aires, que tinha investido “em uma sociedade que fabricava armas” quando Francisco era arcebispo da capital da Argentina.

Outro documento revela que as contas da instituição que administra as doações para a caridade do Papa, chamada de Peter’s Pence, está quase inteiramente “no vermelho”. Em 2012, 14,1 milhões de euros foram para causas de caridade enquanto 28,9 milhões foram direcionados a cobrirem as despesas da organização. Há, também, a existência de contratos de aluguel de propriedades a preços de banana, facilitando para que cardeais e membros da Santa Sé morem em apartamentos de luxo superior a 200 metros quadrados. Isto contrasta com a mentalidade de austeridade muitas vezes mencionada pelo Papa Francisco.

No Instituto para as Obras Religiosas, o Banco do Vaticano, o Vaticano mantém contas para membros não-religiosos com somas tão elevadas quanto $ 296 e $ 125 milhões de dólares. A Fundação Gesu Bambino, criada para ajudar um hospital pediátrico administrado pelo Vaticano, usou fundos para a reforma do sótão do escritório do ex-secretário de Estado, Tarcisio Bertone, após sua aposentadoria.

“A fundação, definida como um veículo para angariar fundos para a assistência, pesquisa e atividades humanitárias do Bambino Gesu pagou uma nota no total de 200.000 euros”, diz o jornalista Nuzzi sobre a questão controversa do apartamento de Bertone. Esta fundação também financia despesas, tais como o aluguel de “um helicóptero de 23.800 euros”, diz o autor no livro.

As despesas geradas pelos membros da hierarquia da Igreja Católica, como o cardeal George Pell, prefeito da Secretaria Econômica, chegam a “meio milhão de euros em seis meses.” O Vaticano tem propriedades em Roma que foram avaliadas em “4 bilhões de euros.” Ele acrescenta que teve acesso a um documento escrito “em Inglês e Italiano que explica como o cardeal Pell pretendia” mostrar “pela primeira vez o verdadeiro valor de todos os bens imóveis de propriedade do Vaticano”.

De acordo com estes documentos, a Santa Sé “tem propriedades no valor de 160 milhões de euros”. Um documento confidencial da comissão que investiga os escritórios econômicos e administrativos da Santa Sé, datado de 07 de janeiro de 2014 “especifica que as propriedades são registradas pelo custo de aquisição ou como doações e muitos edifícios institucionais, supostamente, valem um euro. O valor real é muito maior “.

O autor estima que o valor real dessas propriedades pode equivaler a “4 bilhões de euros.” O Banco do Vaticano não entregou ao Banco da Itália a lista de pessoas envolvidas em casos de evasão de capital, “apesar de ter prometido” fazê-lo. “Na promotoria italiana e no Banco da Itália pessoas estão se perguntando se as contas suspeitas foram finalmente fechadas, ou só bloqueadas ou se as verbas são mantidos em segurança nos cofres do Vaticano”, escreve o autor.

O Vaticano tem mais de trinta milhões de euros em barras de ouro e 33 milhões no Federal Reserve dos Estados Unidos.

“A Igreja Universal tem um compromisso moral e ético, especialmente para os crentes, mas, também, para os não-crentes e agnósticos e espero que o Papa atue para validar este compromisso ético”, o autor acrescentou.

O porta-voz oficial do Vaticano, Federico Lombardi, disse que as informações roubadas da Santa Sé que vazaram para a mídia, assim como os dois livros publicados na quinta-feira, contêm informações “já conhecidas” e lamentou que a divulgação dos documentos não reconheça a transparência do Papa.

“A publicação de volumes de informações diferentes, em grande parte ligada a uma fase de questões já ultrapassadas sem a possibilidade necessária de aprofundamento e de avaliação objetiva resulta na criação da impressão de que há um reinado permanente de confusão e falta de transparência”, lamentou o padre Lombardi na conferência de imprensa no Vaticano.

“Por isso, não é reconhecido o valor e o esforço com o qual o Papa e seus colaboradores enfrentaram e continuam a enfrentar o desafio de melhorar a utilização dos bens temporais a serviço do trabalho espiritual”, assegurou. “No entanto, isso é o que deve ser apreciado e incentivado como uma obra com as informações corretas para atender adequadamente às expectativas da opinião pública e às exigências da verdade.”

Em seu discurso, Lombardi observou que “no decorrer do tempo, essas questões retornam periodicamente, mas são sempre uma questão de curiosidade ou controvérsia” que “aprofundam a gravidade da situação”.

Lombardi reiterou que “muito do que tem sido publicado é o resultado da divulgação de notícias e documentos reservados e, portanto, ilegal na sua obtenção. Por essa razão, é passível de processo criminal de acordo com a decisão das autoridades competentes do Vaticano”.

Lombardi afirmou que “informações desta natureza devem ser estudadas, compreendidas e interpretadas com cuidado e equilíbrio”.

“Os bens que, em conjunto, parecem enormes, realmente tem que sustentar atividades de serviços muito amplos cuja gestão é de responsabilidade da Santa Sé ou de instituições ligadas a ela, tanto em Roma quanto em várias partes do mundo”, explicou ele, enquanto indicava que a origem da propriedade desses bens “é muito variada”.

Por tanto, ele descreveu como uma “realidade objetiva e incontestável” aspectos conduzidos pelo Papa como “a reorganização dos dicastérios econômicos, a nomeação do Auditor Geral, o bom funcionamento das instituições responsáveis pelo acompanhamento das actividades econômicas e financeiras, etc”.

Quanto custa uma Canonização?

Outro aspecto do escândalo em torno do Vaticano é os pagamentos absurdos para agilizar as canonizaçōes. Segundo uma pesquisa, Francisco limitou tais pagamentos, mas não eliminou as taxas exorbitantes nos casos em que a Igreja proclamaria novos santos.

Aparentemente, um dos primeiros objetivos da “operação de limpeza” lançada por Francisco depois de ser eleito Papa em março de 2013 era a “fábrica de santos”.

Por muitos anos, os pesquisadores têm tido conhecimento do custo exorbitante de muitas causas de beatificação e canonização, em torno do qual floresceu um negócio lucrativo dirigido por profissionais bem relacionados.

Esta realidade ressurgiu com o novo escândalo gerado ao longo dos documentos vazados e os dois livros publicados.

Ambos Avarizia, de Emiliano Fittipaldi e Via Crucis, de Gianluigi Nuzzi, apresentam longos capítulos dedicados à análise do desempenho da Congregação para as Causas dos Santos e as medidas tomadas por Francisco.

De acordo com o Corriere della Sera, a gendarmerie -investigadores do Vaticano- vem investigando contas do Instituto para as Obras de Religião, o Banco do Vaticano, sob suspeitas de coleta de subornos de defensores de causas de beatificação e canonização em troca da aceleração dos processos que levariam uma pessoa a se tornar santo.

Em janeiro de 2014, por ordem de Jorge Mario Bergoglio, o Vaticano começou a aplicar novas “taxas de referência” para conter a escalada dos preços nas causas dos novos santos. Em outras palavras, o Papa Francisco ainda está permitindo a compra de santidade, apenas a taxas mais baixas.

O processo para selecionar e declarar alguém santo pode ser demorado e complexo. Mas tal complexidade pode ser esclarecida com a quantidade certa de dinheiro. Além dos encargos administrativos, honorários pagos a um postulador (autorizado pelo advogado da Santa Sé), fazem parte do processo que resulta na declaração de santidade. Extravagâncias adicionais podem aumentar a conta final. Entre elas estão o custo da viagem, exames médicos (sobre milagres), consultorias com teólogos, relatórios, traduções, impressão e até mesmo presentes discretos para prelados influentes.

O livro de Fittipaldi cita o caso de Francina Aina dels de Dolors de Mallorca (Francina Cirer Aina Carbonell), fundadora da Congregação das Irmãs da Caridade, cuja causa teria gasto quase 500.000 euros até outubro de 2013. Via Crucis relata o custo recorde da beatificação do filósofo italiano Antonio Rosmini, em 2007. Houve um desembolso de uma quantia de 750.000 euros.

O pontificado de João Paulo II, que foi nomeado Santo em abril do ano passado, foi a idade de ouro dos defensores e daqueles que ganham a vida com beatificações e canonizações.

Em 27 anos, houve 1.338 novos beatos e 482 santos. Um dos defensores mais conhecidos, de acordo com Avarizia, é Andrea Ambrosi, seguido por Silvia Correale. Fittipaldi qualificou o primeiro como” profissionalmente reservado, capaz de beatificar dezenas de pessoas, incluindo monges e mártires, padres e freiras, leigos e religiosas, imperadores e cardeais “. A família Ambrosi também possui uma empresa de impressão em Roma, onde os documentos são normalmente emitidos para as causas.

De acordo com o livro de Nuzzi, a Congregação para as Causas dos Santos foi uma das mais relutantes e lentas para colaborar com a transparência financeira exigida pelos novos tempos.

Os livros que resultaram dos  documentos do Vatileaks II fornecem detalhes sobre os investimentos do Banco do Vaticano, as reservas de ouro e os vastos ativos imobiliários de propriedade da Santa Sé -alguns com mais de 500 metros quadrados- que foram transformados nos palácios dos cardeais.

Vale ressaltar que a Santa Sé também possui propriedades urbanas de grande prestígio em Paris e na Suíça. Com base nos documentos vazados e em que nenhum momento foram negados pelo Vaticano, apenas denunciados por ter sido obtidos “ilicitamente”, a Santa Sé adquiriu, através da empresa francesa Sopridex Sa, uma propriedade exclusiva conhecida como Vendôme, que teve entre seus inquilinos o falecido Presidente francês, François Mitterrand, e o ex-ministro das Relações Exteriores, Bernard Kouchner. Outros edifícios estão localizados na Champs-Elysées e Montparnasse.

O Cardeal Tarcisio Bertone, ex-secretário de Estado, negou as alegações publicadas nos livros que o nomeia como um dos poucos que se beneficiaram com a riqueza do Vaticano. Em entrevista ao Corriere della Sera, o cardeal disse que, para reformar a propriedade, eles precisavam de 300.000 euros e que ele não sabe nada sobre os outros 200.000 euros que vieram da Fundação Hospital Infantil Menino Jesus.

Bertone disse que ele foi vítima de perseguição da mídia. O cardeal especificou que seu apartamento tem 295 metros quadrados deve ser compartilhado com as três freiras em seu serviço. A propriedade inclui um escritório, uma biblioteca e um arquivo. Bertone negou que a cobertura superior seja dele. “Eu não vivo em luxo”, disse ele. Mas Bertone e outros cardeais cada vez mais encontram dificuldades para justificar suas casas quando o Papa vive em um quarto de 50 metros quadrados.

Enquanto aqueles que procuram manter escândalos do Vaticano em segredo dizem que as últimas revelações são um esforço para minar o Vaticano, a Igreja e o Papa, a verdade é que, agora que os escândalos de corrupção do Vaticano se tornaram públicos, há menos razão para manter tais detalhes em segredo. Se existe alguma coisa que pode ser tirada do conteúdo dos documentos vazados é que, agora mais do que nunca, o Papa Francisco tem uma nova oportunidade de confessar e falar claramente com os seus seguidores. Sigilo não é mais uma opção e a fé de milhões de pessoas está em jogo.

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