|Sunday, September 24, 2017
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Biodiversidade da Amazônia ameaçada por Barragens 

Amazônia

Ao longo da Amazônia, existem 140 barragens hidráulicas que estão em construção ou já estão em operação. Há planos para a construção de outras 428.

AMAZÔNIA – Mesmo se apenas uma parte das barragens que estão sendo planejadas for construída, cientistas acreditam que o impacto nos rios amazônicos será “desastroso”.

Um estudo global sobre as conseqüências de barragens indica que irão alterar o fluxo do rio, impedindo que a maioria dos sedimentos e nutrientes dos rios vivifique a planície amazônica afogando a vida que depende do rio e do oceano, onde finalmente terminam.

Na Amazônia, tudo é grande. Sua seção principal é de cerca de 2.000 quilômetros até chegar no Atlântico, em um estuário com mais de 300 quilômetros de largura.

Mas ainda há mais 5.000 quilômetros até chegar na extremidade oposta, perto dos Andes peruanos.

Algumas das fontes de água mais importantes da Amazônia, como o rio Madeira, o rio Negro e o Japura, estão entre os 10 maiores rios do planeta.

A bacia amazônica ocupa uma área de 6,1 milhões de km2 e a água que flui através dos rios amazônicos equivale a 20% da água fresca do suprimento da Terra.

Apesar de tanta enormidade, não há rio que sobreviva 568 barragens. Essa é a principal conclusão de um estudo envolvendo ecologistas e engenheiros, economistas e geólogos de uma dúzia de universidades americanas, alemãs, britânicas e brasileiras.

Embora cada barragem seja acompanhada por seu estudo de impacto ambiental, o impacto regional de todas as barragens existentes na bacia amazônica nunca foi estudado.

A pesquisa, publicada na Nature, analisa o custo que terão na vida do rio, das inundações sazonais que dão vida à Amazônia e aos sedimentos que deixarão de arrastar nutrientes ao longo da região.

Os rios não são apenas água. Eles também carregam grandes quantidades de sedimentos que começam de um lado e que são depositados no outro.

Esses sedimentos são o substrato mineral da vida em uma vasta região de mais de um milhão de km2, entre zonas úmidas e planícies aluviais.

Em seu último trecho, a Amazônia transporta entre 800 e 1,2 milhões de toneladas de limo, areia e argila ao oceano cada ano.

Com cada barragem que fica entre o rio e o mar, uma porcentagem desses sedimentos ficará presa no concreto.

“Lembre-se do antigo Egito, que dependia do limo do rio que fertilizava as terras da planície”, diz o pesquisador da Universidade de Texas em Austin (EUA) e principal autor do estudo, Edgardo Latrubesse.

“O Nilo é hoje um rio regulado artificialmente por mega barragens. É um caso típico que exemplifica os tremendos impactos produzidos pelas infra-estruturas construídas há várias décadas, o que produziu grandes impactos sociais, ambientais e econômicos”, acrescenta o especialista em geomorfologia dos rios.

Não é a primeira vez que a situação do Egito moderno está relacionada com a alteração do curso do seu grande rio.

No caso citado por Latrubesse, na Amazônia, o impacto combinado das barragens pode causar mais de 60% dos sedimentos que o rio arrasta ficar preso ao longo do caminho.

“No Yangtze, onde a barragem das Três Gargantas foi construída, a retenção agora é de mais de 75% e em outros rios como o alto rio Paraná no Brasil, a retenção é superior a 100%.

Valores de mais de 70-90% são típicos do mundo. Esperamos algo semelhante na Amazônia se tudo o que está para ser construído é realmente construído”, diz ele.

Essa interferência na dinâmica do rio terá “conseqüências desastrosas”, nas palavras de Latrubesse.

Os sedimentos não apenas transportam nutrientes para a planície aluvial, mas são parte integral do rio: “as ilhas e as planícies aluviais são corroídas enquanto novas áreas são geradas pela sedimentação”, lembra o pesquisador.

Essa dinâmica ajuda a manter uma grande diversidade de ambientes nos trópicos e, para os biólogos, “esse processo de regeneração é um mecanismo muito importante que contribui para a criação de biodiversidade”, conclui.

O problema não será menor no oceano. A coluna de água e sedimentos que termina no Atlântico se estende por mais de 1,3 milhão de km2 do oceano, metade do que ocupa o Mediterrâneo.

Além de ser a base de uma extensa linha de coral na costa americana e os manguezais dos Guayanas do norte do Brasil, esta enorme contribuição da Amazônia está envolvida no clima regional, condicionando a geração e o movimento de tempestades tropicais no Caribe.

A falta de sedimentos na zona costeira também favorecerá a erosão marinha e a intrusão de água salgada em aqüíferos.

Os autores do estudo criaram um índice de vulnerabilidade dos rios ao impacto das barragens. Cerca de um máximo de 100, alguns rios da faixa andina, como o Marañón, poderiam atingir um índice 72.

Na sua cabeça, foram construídas ou planejadas 104 barragens com capacidade de geração de mais de 1 megawatt (MW).

Mais abaixo, o rio mais vulnerável é o Madeira, um dos 10 maiores rios do mundo, que por sua vez fornece metade dos sedimentos que a Amazônia leva ao mar.

Com um índice de vulnerabilidade superior a 80, o rio Madeira possui cerca de 1.000 espécies de peixes, triplicando a quantidade de todos os rios da Europa.

Mas talvez o caso mais marcante seja o do rio Tapajós, principal afluente da margem direita da Amazônia.

Embora não haja barragens em sua seção principal, será um dos mais afetados pela construção de dezenas de barragens em seus afluentes, o que criará um sistema interconectado de barragens e pântanos artificiais ao longo de 1.000 km.

Para Latrubesse, “seria impossível construir tais barragens em países desenvolvidos” devido ao gigantesco impacto ambiental.

A justificativa para tudo isso foi a necessidade de gerar energia em que Brasil, Equador,  Peru ou a Bolívia pudessem basear seu desenvolvimento. No entanto, as hidrelétricas não parecem ser a solução.

O pesquisador da Universidade de Oxford e co-autor do estudo, Atif Ansar, lembra: “Nossa pesquisa anterior mostrou que, devido ao problema sistemático dos custos adicionais e ao alongamento dos prazos, o custo real das grandes barragens é muito alto para recuperá-lo”.

Estudos anteriores apenas incluíram o impacto econômico, mas não incluíram o impacto ambiental. Agora, ele diz: “grandes barragens não são apenas economicamente inviáveis, mas também prejudiciais para o meio ambiente”.

About the author: Luis R. Miranda

Luis Miranda is an award-winning journalist and the Founder and Editor of The Real Agenda News. His career spans over 20 years and almost every form of news media. He writes about environmentalism, geopolitics, globalisation, health, corporate control of government, immigration and banking cartels. Luis has worked as a news reporter, On-air personality for Live news programs, script writer, producer and co-producer on broadcast news.

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