A Internet foi, desde o início, financiada e promovida pelo Pentágono e Wall Street.

Somos tentados a ter saudade dos tempos mais simples e otimistas antes da Internet perder o controle ou, talvez, estar sob o controle de tão poucos.

Em um manifesto publicado em setembro de 2018, Tim Berners-Lee reconheceu que “apesar de tudo que alcançamos, a Internet tornou-se uma divisão de motores sob a influência de” forças poderosas que a usam para seus próprios fins obscuros “.

É fácil entender e identificar-se com essa nostalgia da antiga Internet, onde os mestres eram os geeks do eBay e não os Barões da Amazon, Facebook e Apple.

Esses sentimentos só se intensificam a cada dia, com o terreno virtual anteriormente ocupado por artesãos e amadores digitais dando lugar a enormes investimentos de fundos soberanos e à dura mão dos governos para se apropriarem de algo que em sua forma mais simples não deveria pertencer a ninguém.

Sem que a maioria dos observadores saiba ou perceba, o ambiente que no passado era chamado de “ciberespaço” – uma entidade inerte, virtual e efêmera – tornou-se o setor da economia que concentra mais capital. Sua coesão depende de centros de informação, cabos de dados submarinos e infraestruturas ativadas por sensores, que sao exemplos de coisas materiais, que se estendem de ponta a ponta em nossas cidades.

Na realidade, em 2018, os quatro gigantes da Internet – Google, Facebook, Amazon e Microsoft – investiram mais capital do que as quatro principais companhias de petróleo – Shell, Exxon, BP e Chevron – em um total de US $ 77,6 bilhões e US $ 71,5 bilhões respectivamente.

Espera-se que essas figuras astronômicas convençam aqueles que continuam apegados à idéia de que essa aventura tem algo inerte ou virtual.

O que poderia ser mais material do que um setor que investe mais dinheiro do que as empresas de petróleo para trazer todos os serviços, aparentemente, gratuitos para nossos dispositivos?

Dado o processo de “colonização” do ciberespaço antes intocado pelas forças do capital e do poder político, anseio por tempos mais simples é perdoável.

Difícil de perdoar são os esforços políticos para nos devolver àquela época imaginária por meio de truques legais e tecnológicos.

O manifesto de Berners-Lee, que deu o que falar para coincidir com o 30º aniversário da Internet, é um bom exemplo desse tipo de lógica do salvador tecnocrático.

Se partirmos do pressuposto que os engenheiros nos decepcionaram – como eles poderiam prever, em 1989, o desastre que seria o Facebook – eles também deveriam nos salvar.

Bernders-Lee e a Fundação Web que ele preside propõem uma plataforma tecnológica inovadora, chamada Solid, para “restaurar o poder e a capacidade de intervenção de indivíduos na Rede “.

Solid permitirá aos usuários determinar, entre outras coisas, o que acontecerá com os dados que eles geram e quem terá acesso a eles.

Por si só, a plataforma constitui um inovador afastamento do atual modelo caótico em que empresas com maior capacidade extrativa acabam monopolizando o acesso a dados de usuários.

A abordagem de Berners-Lee é baseada em uma idéia da Internet que, praticamente, paralisou qualquer ação política efetiva e que parece ter favorecido o surgimento de duas forças poderosas:  China e Estados Unidos.

A ideia de Bernders-Lee parece querer forçar a ideia de um território sem mácula, habitado por engenheiros, geeks e amadores.

Deixa de lado a realidade da chegada de iniciativas monopolistas que se instalaram para impor o funcionamento de seus serviços secretos e departamentos de vigilância.

Poucas pessoas sabem ou lembram que as redes de dados originais foram desenvolvidas e promovidas pelo Pentágono e pela Wall Street.

Os governos estavam presentes na Internet desde o início, não apenas através de seus serviços secretos, mas, também, através de suas pastas do Tesouro e Comércio.

Eles foram os que determinaram as prioridades comerciais e financeiras globais para garantir o domínio dos EUA.

Os anunciantes não entraram no movimento digital na década de dois mil, mas, desde o início dos anos 90, com a chegada do primeiro navegador da internet.

A Internet nasceu com limitações impostas pelos interesses de governos e empresas numa época em que não exigia um grande investimento de capital.

Hoje, é diferente. A Arábia Saudita prefere investir em empresas de tecnologia como a Uber em vez de investir em setores mais tradicionais.

A idéia de que, em 1990, os usuários tinham algum poder que, agora, precisa ser “restaurado” é uma ilusão. A Internet nunca foi livre ou democrática.

Estamos confundindo a falta temporária de interesse por parte das empresas e dos governos com uma realidade onde existe uma ordem constitucional estabelecida que protege direitos e liberdades, quaisquer que sejam os custos, para limitar os monopólios das empresas ou governos.

Essa ordem constitucional nunca existiu. Nossa liberdade na Internet não passava de um subproduto de uma empresa e de modelos de vigilância subdesenvolvidos.

Um plano para uma verdadeira transmissão de poder exigiria muito mais do que outro engenhoso protocolo para a transferência de dados; esse tipo de intervencionismo tecnocrático é o que alimenta a raiva populista em todo o mundo.

Não há empoderamento digital sem empoderamento político e o último só pode ser alcançado concebendo a Internet não como um meio ou uma ferramenta, mas como um conjunto de infra-estruturas para facilitar vida, trabalho e cooperação.

Há necessidade de uma política para todas as infraestruturas que abranjam questões relacionadas à sua economia política, com a partilha de propriedade e riscos entre diferentes setores públicos e privados.

Somente então será possível concentrar-seem tarefas prosaicas de encontrar as plataformas e os protocolos para dar coesão à rede.

Se um novo conjunto de políticas não for estabelecido, chegará o momento em que seremos privados de tudo na Internet, pois será propriedade de Mark Zuckerberg, Xi Jinping ou Arábia Saudita.

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