SAO PAULO – É difícil ser otimista aqui no Brasil. A realidade da política é muito inconsistente com o que se acredita estar acontecendo na arena política, onde parece que os juizes estão limpando a casa.

Embora Lula tenha sido condenado e haja um processo aberto contra o atual presidente, Michel Temer – que mostra como os promotores e magistrados dominam a vida política – por outro lado, a vida cotidiana dos brasileiros não é muito diferente de 5 anos atrás.

A recente convicção por corrupção contra o ex-presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, é o sinal mais recente de que o sistema está sendo purgado e parece que haverá outros casos como o de Lula.

O Brasil é um país sufocado pela corrupção em que há um conflito com um ar de guerra declarada entre o poder político, um estado excepcionalmente corrupto e o poder judicial que parte ser excepcionalmente incorruptível.

Nos últimos anos, centenas de ministros, governadores, deputados, senadores e ministros foram detidos e até mesmo o presidente Michel Temer está sendo investigado e acusado de receber subornos.

O campo de batalha é composto por investigações realizadas no caso da Petrobras, lideradas por pelotões de juízes, procuradores e tribunais de diferentes instituições. E depois de três anos de desvendar a rede de corrupção de quase toda a classe dominante, a frente atingiu a medula do governo.

“É um momento sem precedentes”, diz Bruno Brandão, representante da Transparency International no Brasil. “A imagem da impunidade das elites brasileiras está a rachar”.

Mas não tão rápido, no entanto. Nenhum político brasileiro importante, certamente nenhum dos chefes do esquema de corrupção, foi enviado para a prisão.

Nas últimas duas semanas o país atingiu dois importantes marcos históricos:

Pela primeira vez, o presidente, Michel Temer, foi acusado de corrupção pelo Ministério Público;

Na quarta-feira, Luiz Inácio Lula da Silva, tornou-se o primeiro ex-presidente a ser condenado à prisão por lavagem de dinheiro e corrupção: nove anos e meio de prisão, de acordo com uma decisão que pode ser apelada para uma segunda instância enquanto ele permanece em liberdade.

Lula e Temer não podem ser mais diferentes politicamente, mas ambos reagiram da mesma forma a seus problemas legais:

“Esta decisão procura me derrubar”, protestou o primeiro, ao questionar a autoridade dos juízes: “Somente o povo brasileiro pode decretar meu fim”, Lula disse.

Temer também, a primeira vez que falou em público depois de conhecer as acusações contra ele por supostos favores, saltou para a ofensiva:

“Esta é uma tentativa no nosso país. Não permitirei que minha honra ou minha dignidade sejam questionadas. Não irei fugir das batalhas”.

O presidente enfrentou sua ameaça no dia seguinte, quando ele teve que nomear o novo procurador-geral – o atual, Rodrigo Janot, que o denunciou, deixa sua posição em 17 de setembro.

No Brasil, o presidente geralmente respeita o nome mais votado pelo próprio ministério público. É um sinal de respeito pela força e independência da instituição.

Temer, em vez disso, escolheu a segunda pessoa mais votada, Raquel Dodge.

O gesto não muda muito – Dodge tem uma ótima experiência na luta contra a corrupção – mas foi uma questão de dar uma bofetada aos que acreditam que o país está nas mãos dos juízes.

Muitos são de opinião que Temer também esperava enfraquecer a denúncia de Janot antes de votar no Congresso em 2 de agosto.

Se a Câmara o aprova, o processo será enviado ao Supremo Tribunal, que o demitirá temporariamente. E se ele finalmente o achar culpado, Temer será removido permanentemente da presidência.

Uma vez que o Temer esteja fora da presidência, perderia suas proteções e então teria que responder por todas as acusações que os promotores acumularam contra ele.

A única solução para Temer é resolver a acusação na arena política, a qualquer custo.

A presidência – e a imunidade legal que ela concede – também representa uma solução para o desesperado ex-presidente, Lula da Silva.

Quatro mais sentenças ainda precisam ser publicadas e basta que a segunda instância o culpe em apenas uma delas para Lula ficar politicamente incapacitado e, talvez, acabar na prisão.

O único ativo do líder do Partido dos Trabalhadores é atrasar o processo até agosto de 2018, quando a campanha eleitoral começar, e rezar pela sua vitória nas eleições presidenciais.

O panorama não poderia ser mais diferente do que foi durante décadas no Brasil.

Um lugar onde o poder e o dinheiro comandavam mais do que a justiça, onde roubar mais é uma característica positiva para um político e onde o procurador-geral era conhecido como o “engavetador geral” por esconder processos políticos e judiciais contra aqueles que roubavam.

Tudo mudou em 2003 com a chegada, ironicamente, de Lula. Ele duplicou o tamanho e os recursos da polícia, que de repente conseguiu assumir grandes operações.

Ele permitiu que o Ministério Público nomeasse o procurador-geral e unificou o Judiciário, que estava desmembrado.

Talves o Lula acreditava que ele nunca seria investigado, se seus negócios escuros fossem conhecidos, ou que os promotores nunca avançariam com acusações ou condenações.

Logo, um orgulho de classe começou a florescer. Aparentemente, no meio de toda a corrupção, há uma característica que define o Brasil, crise após crise: a independência do seu poder judicial.

No Brasil, a corrupção havia sido incorporada na vida pública há décadas. Foi a descoberta dessa corrupção o que paralisou tudo. Muitos perguntam por que não houve um promotor, um advogado ou um juiz que fizesse isso antes.

Enquanto a economia está em crise, a política gira em torno dos tribunais e as pessoas perderam a esperança de que tudo melhorará quando todos os culpados estiverem presos.

“O futuro é substituir pessoas com instituições e salvar-nos sem salvadores”, diz Ayres Britto, que foi nomeado por Lula para o Supremo Tribunal entre 2003 e 2012.

Quem poderia ser o novo líder do Brasil?

Não há generais ou comandantes nos confrontos entre o executivo brasileiro e os poderes judiciais, mas há nomes próprios.

No país, há muito poucos que não conhecem Sérgio Moro, o juiz responsável pelo caso Petrobras em primeira instância e que – voluntariamente ou não – incorpora as virtudes procuradas pelos críticos da classe política.

Moro é graduado da Universidade de Harvard, com doutorado em direito. Ele mesmo declarou ser escravo da lei, e se orgulha em tomar decisões temperadas respeitando as regras do sistema legal.

Talvez por causa de tudo isso é que ele pensou que Lula da Silva – alguém pragmático, astuto e sem educação – foi a última pedra no seu sapato.

Tão famosa é a inimizade entre os dois que, quando o ex-presidente foi chamado a testemunhar na frente de Moro em 10 de maio passado, a reunião foi tratada como um combate cara a cara entre dois lutadores.

Lula fez isso parecer mais um espetáculo devido à sua arrogância.

Antes da reunião, o juiz Moro publicou uma mensagem em sua página do Facebook, onde ele tem dois milhões de seguidores. Ele pediu-lhes que não fossem às ruas para protestar contra Lula, para não criar confusão.

Contudo, convocou milhares de membros do sindicato e o Partido dos Trabalhadores que abarcaram a entrada dos tribunais no final do depoimento e transformaram o evento em uma manifestação. Leis e rua, duas maneiras de ganhar o mesmo jogo.

O presidente do Brasil, Michel Temer, foi recentemente visto com o procurador-geral, Rodrigo Janot, veterano do campo jurídico em cargos públicos e privados.

Muitos acreditam que a intenção que ele tem com o presidente Temer ao denunciá-lo por receber subornos é uma condena completamente política.

Na verdade, ele ainda tem indícios sobre outros casos para denunciá-lo mais duas vezes por obstrução da justiça e corrupção ativa, mas Janot espera que Temer esgote sua capital política no Congresso.

Um novo futuro seria aquele em que a classe política corrupta esteja na cadeia. Claro, isso levaria à questão de quem lideraria o país, já que os brasileiros não conseguem encontrar o seu nariz na frente deles.

Os futuros líderes serão juízes ou ex-juízes? Eles certamente são agora.

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